Relato no Costa Favolosa

Texto por Lucas Leite. Confira o post original clicando aqui.

“Um mês e 6 dias a bordo do Costa Favolosa e eu percebi que não escrevi nenhum relato aqui. Para alguém tão viciado em textões quanto eu, isto é um absurdo.

Eu embarquei em 13 de novembro como Housekeeping Steward. Assim como todos os outros novatos, eu basicamente fui largado no navio para me virar. Tive ajuda de outros tripulantes, mas consegui perder a hora para meu general emergency training (a Chief Crew Steward ficou me procurando feito louca pelo navio), perdi o turno da manhã da Uniform Store e, para fechar com chave de ouro, levei um bom tempo para encontrar a porta secreta para a sala da House Keeper, o que me rendeu um “This is not a good first impression” à guisa de boas vindas. Naquela hora eu já estava me perguntando se eu estava destinado a ser o primeiro idiota a ser reprovado no contrato de experiência.

Nos dias que se seguiram, eu fui me adaptando à esta vida. Muita gente diz que eu me adaptei bem até demais, mas eu tenho dois truques para isto: primeiro, eu nunca tive uma vida social decente, o que significa que a principal dificuldade a bordo não quer dizer nada para mim. Segundo, eu tenho a mania de sorrir quando me sinto acuado (e eu me sinto muito acuado num corredor lotado de pessoas, que é a descrição perfeita para o Deck 0), o que dá a impressão de que estou sempre feliz.

A comida, que muitos dizem ser horrível, está boa o bastante para mim. Eu tenho o hábito de encher o prato de salada e comer tudo sem tempero, com apenas um pedaço de carne para dar mais sabor (às vezes, nem isto), então sempre consigo achar algo decente. O curry é quase onipresente, mas eu tenho a sorte de ser um dos 3 ou 4 brasileiros que gostam de curry. E sempre tem sorvete ou alguma sobremesa de chocolate: sobremesas constituem a maior parte de minha dieta (eu também gosto de maçãs, a propósito). Se não fossem as sobremesas, eu provavelmente já teria perdido uns 10 kg, mas ao invés, estou conseguindo manter um peso constante. Sou um exemplo de saúde e bons hábitos alimentares.

O trabalho como HK Steward não é nem de longe tão desagradável quanto dizem. Em teoria, meu dever e remover impressões digitais de vidros e metais, passar o aspirador nos carpetes, passar o esfregão nos pisos, manter os banheiros limpos e abastecidos com aquelas MALDITAS WASH CLOTHES DO CAPETA! Mas na prática, sempre tem algo diferente para fazer e eu acabo fugindo da rotina. Já levei pacientes do Medical Center até a cabine (e ganhei uma gorjeta, que aceitei sem pensar, fiquei arrependido por aceitar e acabei dando a um músico de rua no dia seguinte), empilhei cadeiras na piscina do deck 12 enquanto o vento tentava arrancá-las de minhas mãos (o encosto de uma delas bateu na minha testa e eu agora tenho uma cicatriz como recompensa), ajudei passageiros a passarem pelos ventos do porto de Marselha (melhor dia de minha vida; ainda não lavei o sal de minha jaqueta), aturei um cadeirante francês mal educado durante os mais de 20 dias do cruzeiro de travessia (eu o apelidei de C’est Bozo, pois as únicas coisas que ele dizia eram “c’est bon” e “non”)…

Sobre desembarcar nos portos… Meu horário é das 14 h às 2 h, o que significa que eu sempre consigo passar umas 3 horas fora do navio pela manhã. Eu tenho o hábito de correr (não por razões fitness, mas sim porque eu gosto de sair correndo sem rumo por aí), então meu Strava agora está cheio de publicações em Marselha, Barcelona, Arrecife (minha favorita: eu corri pelo deserto nos arredores da cidade), Maceió, RJ, Ilhabela… E na Europa eu ainda tinha a vantagem de aprender a me virar fazendo compras em supermercados franceses, espanhóis e italianos. Boa maneira de praticar os idiomas que eu não conheço.

Sobre o crew bar e as crew parties… Meu horário é das 14 h às 2 h, o que significa que eu ainda não tive a chance de estar presente nos horários de pico. Mas como eu disse antes, minha vida social nunca foi grande coisa, então não estou perdendo nada de que eu sinta falta.

A pegação que foi prometida também está abaixo as expectativas. Eu tive uma oportunidade com uma crew que estava para desembarcar, mas devido ao meu alto (100%, com margem de erro de 2 pontos percentuais para friendzone) índice de rejeição em terra, quando ela disse “eu desembarco amanhã” eu entendi como “pare de me encher o saco.” Meus colegas dizem que o eu deveria ter entendido era “são quase 4 da manhã e eu ainda estou falando com você. Cabin inspection possible?”

Mas a melhor parte da vida a bordo é a crew beach. Eu conheci o lugar em meu terceiro dia a bordo, quando o frio europeu afugentava todos os outros tripulantes. Peguei o hábito de passar meus momentos de folga ali, apenas apreciando a paisagem. À noite, é possível ver estrelas que eu nem sabia que existiam. E no início do crossing, as pessoas começaram a usar as jacuzzis. Resultado: eu, que havia chegado ao navio com a pele mais ou menos dourada e já estava ficando amarelo na Europa, agora estou apto a solicitar cotas no vestibular da Fuvest.

E também tenho um amigo filipino e me relaciono bem com os indianos da security os indonésios da laundry. Não parece nada de especial agora, mas se eu soubesse disto há um mês, provavelmente ficaria admirado. Os sotaques deles pareciam ininteligíveis quando eu embarquei, mas agora eu converso com todo mundo sem problemas.

Em breve mais notícias e relatos! Deixe seu comentário abaixo.

Lucas Leite
Lucas Leite começou a embarcar em 2017 através da companhia Costa Crociere na função de Housekeeping Steward e faz parte do nosso grupo de suporte e ajuda no Facebook. Se interessou? Venha você também fazer parte do #SHIPLIFE no Facebook